Universidade Federal da Bahia
Isabel Cristina Moreira Santos
Reflexão Pessoal sobre Modernidade líquida
O texto que apresenta o Livro A Modernidade Líquida de Bauman apresenta também o conceito importado da Física e muitas vezes utilizado pelo autor da palavra “líquida”,o que me leva a pensar nos fluidos ,mais especificamente, na capacidade de amoldamento que estes possuem.A comunidade era um espaço vigiado por olhos de vizinhas faladeiras,comadres e outros tantos vigilantes, esta comunidade foi relegada e substituída por um espaço higienizado, onde as relações sociais são filtradas por máscaras,absolutamente impolutas, onde não há espaço para o constrangimento dos sentimentos individuais,é claro que o choro vai ser resguardado em nome deste novo espaço público , mas não civil, onde isto exporia a fragilidade de todos através de uma única lágrima constrangedora derramada fora do contexto.Observem as diferenças dos velórios, nas antigas comunidades os velórios eram acontecimentos longos, de espera, de choro, de reencontros com os distantes,de atualização dos acontecimentos familiares, agora devem ser rápidos e higiênicos, poucas lágrimas para não causar mal estar nos presentes,poucas palavras pois estas são inúteis e a multivocalidade urbana deve ser negada,poucos convidados pois não é um encontro social,poucos vivos pois a morte é constrangedora e expõe nossa humanidade mesmo quando revestida com máscaras .Há, segundo Bauman, um perigo no encontro com o estranho, mas parece haver um perigo maior no encontro com o humano do ser na pós modernidade.
Os líquidos não passam incólumes nos ambientes onde circulam, por exemplo, o rio intervem na margem,e esta molda caminho do rio.Na verdade, nenhum molde foi quebrado sem que fosse substituído por outro; a nova ordem pressupõe que os indivíduos se ajustem aos nichos pré determinados ou tornem-se marginais, vagabundos ou bruxos,velhos ou pobres, qualquer espécie que não maculem os shopping center limpos e onde estranhos sorriem usando as mesmas máscaras que os tornam exatamente iguais, quem não se enquadrar neste padrão é jogado para fora dos espaços urbanos,para os caminhos tortuosos das favelas, para a invisibilidade urbana.E aí chega o questionamento maior:Até quando esta massa de invisíveis não se fará visível?A violência,a insegurança,as grades,os muros,os portões,as severas vigilância que vivemos são sintomas desta invisibilidade?O lixo humano varrido para baixo dos tapetes fora dos mapas da cidade desta população ficará invisível para sempre?
Da mesma forma como nos causa estranhamento o choro,a dor, a pobreza, acredito que estas sejam condições inerentes ao ser humano e que mesmo mascaradas ou retiradas dos mapas da
cidade ainda circulam dentro e fora do homem.
A cidade de Hazeldon segura e higienizada daqueles que fogem a homogeneidade proposta pela pos modernidade reforça a ideia de que , como todos os líquidos, esta também se amoldará ao curso natural da história,visto que , o homem possui muito mais aspectos do que supõe uma cidade sitiada pelo medo, o homem natural tem necessidade do diverso, não da diversidade de produtos e serviços nas cidades e shopping centers imaginariamente limpos das mazelas humanas oferecem , mas da diversidade de sentimentos e aventuras.Um espaço previsível não oferece ao ser humano ambiente propício a seu instinto de caçador.A coletividade vista nos templos de consumo é apenas a reunião de uma massa de seres que negam sua individualidade, a utópica negação do risco robotiza as relações dentro destes templos.Por outro lado, o homem tem também o sentimento e a necessidade de pertença a um grupo, dentro destes templos , ele sente-se entre seus pares, não no sentido coletivo ,mas no sentido de ser aceito como igual , nem que para isto ele tenha que negar-se enquanto indivíduo.A palavra comunidade passa a ter este sinônimo de pertencimento a um grupo, de ser igual aos seus na eterna busca da identidade perdida.Isto me lembra a minha pequena comunidade , onde a referência “ou donos”em nossa brincadeira são pais ,maridos ou profissões, há ainda uma profusão de Maria de Pedro , Zé Sapateiro, e outros tantos, nossas identidades são referenciadas por uma história ou por um antepassado , esta referencialidade prende seus habitantes a um tempo dando-lhe a amarra necessária para que não se percam em muitas marias ou zés, somos assim , alguém que já se apresenta com uma história e com um pertencimento como outrora nossos nomes e identidades referiam-se aos espaços e famílias. A instantaneidade compactua contra esta identidade necessária ao homem e este pertencimento..O tempo contado a partir da pós modernidade extrai do homem este sentimento de pertencimento pois tudo pode ser deixado de lado pois tudo está à mão , pronto para ser consumido, sem riscos, eu não sou mais “de” sou eu-número,eu-série,eu-sigla,eu-CPF,eu-RG,eu-cartão de crédito, tudo isto me faz pertencer a um novo grupo:daqueles que frequentam os templos de consumo,onde a entrada é permitida para os iguais,para aqueles que podem consumir ou aqueles que poderão.